Sentados frente a frente na pequena mesa da copa. Tomando café e comendo queijo, porque o pão acabou.
— Tô um pouco melancólica aqui. Refletindo…
— Por causa da sua mãe?
— Sim.

Silêncio

— Eu acho que eu romantizava muito a nossa relação. Daí a gente cresce e percebe os erros dos pais. E, ao mesmo tempo que bate uma decepçãozinha, bate a culpa. Parece que tô sendo ingrata. Complicado.
— Não sei o que dizer.
Toma o café numa golada e empurra a xícara para que ela sirva mais.
— Chega um ponto na vida que as coisas se…


Foto de porcelana&cia

Li na borra turca
uma ditadura
Que insiste
Repetir-se


Campo Grande, 07.06.2021

Foto de ijeab no Freepik

talvez se não tivesse saído naquela noite
se não tivesse caído
ou não existisse ainda
talvez e só talvez teria parado o tempo
implacável em seus domínios

desculpe se não digo por linhas
por trilhos brancos
falar assim e viver é um rabisco
e não tomar esse risco?
certamente erraria

talvez se tivesse pensado nas coisas
que só agora vejo e elaboro
em nada pensaria
elas não existiriam
se em tal vez tivesse não assumido o risco
talvez tudo seria possível, inclusive nada


Campo Grande, 07.06.2021

Água foto criada por jcomp

um dia eu gostaria de caminhar com você
segurando a sua mão
dizer que te amo, que é meu herói
e, meu motivo de luta,
meu herói, meu herói

você é meu vilão

tudo que faço me queima
com seu veneno orgulhoso
tudo é por você, cara
meu mentor, meu guia
meu trovão

um dia queria caminhar com você
sem me preocupar com caminho
com o jeito que eu ando, como respiro
queria dizer que te amo
mas eu não consigo


Campo Grande, 06.06.2021

não me sobra nada

se me tiram a poesia
sobram o advogado e o criminoso
o filho fraco

não me sobra nada
se me tiram os poetas
sobram os textos de barsa limpa e arrumada

se me tiram a música
não me sobra nada além do oco
se me tiram o centro
não me sobra nada além de margens e trilhos

se me tiram a água, minha liberdade
não me sobra nada


Campo Grande, 07 de março de 2021

Foto de Rogerio da Silva (Secom Joinville)

Desci a rua do shopping acelerado pra pegar o carro que estacionei em lugar proibido.

Tá louco que eu vou pagar estacionamento? 8 reais é um roubo.

Quase consegui chegar até o carro antes de ser abordado por um homem escuro.

Se fosse no semáforo, teria dado tempo de fechar o vidro e pegar o celular. Olhar pra baixo. Pro lado. É mais fácil… Mas, assim? No meio da calçada, cara a cara. Não tenho muito o que fazer. E se me xingar? Ou coisa pior.

Ele fez um sinal com a mão pedindo dinheiro. Olhei pro cartaz que ele…


Campo Grande, 15.03.2021

Eu não sei e tudo bem
não saber é uma habilidade em falta

Um vazio é como um silêncio
tão assombroso e transgressor
Até não poder ser tocado

Ou talvez por isso

Não se pode dominar o nada
eu não sei viver sem possuir


Campo Grande, 07 de março de 2021

As imagens ficam meio borradas quando essa bomba pulsa na minha cabeça
Paralisia me impede de alcançar o cálice de verdade logo ali
Sentado, preso, sou molhado de verde
Pingando consigo levantar
O cálice se foi
Num arranque tento alcançar, mas a visão embaçada e a cabeça dói
Isso me congela até passar
Que vida é essa que não tenho?
De lado passa um redemoninho
Comandado por saci
Desses que rodopiam tranças em cavalos
Já sei que não estou em mim
E derreto em ondulações até sair do outro lado
Deserto e silêncio


Campo Grande — 28 06 2020

Tudo começou como uma brincadeira
Uma flor deixada no peito enquanto ele dormia
Juntando alguma palavras para um poeminha
Meninice ao pé do ouvido
Eu não quis acreditar

Achei que só uma paixãozinha

E não dei bola
Sem saber que estava jogando fora
O ofício da vida minha

Não, não era uma menina
Nem um menino
Era um destino
E eu, sem saber o que seria,
Deixei que fosse embora
Hoje pagarei a conta
E o preço eu te conto agora


Disponível em pixabay

cgr, 18nov2020

A sua linguagem não é de olhos
nem de favores, de presentes
Bocas pintadas mudas e cheias de dentes

Aqui jaz um corpo ao lado do seu
Na cama, quente

A ti não comunicam lembrancinhas,
olhos suados, carícias
Não te interessam meias eufemias

O corpo rola até parar de lado
Encostado no seu, ruidoso

Você é da palavra dita e direta
Do lembrete oral, bem verbalizado
Você é da língua concreta

E ele olha com ailovius nos olhos,
com jetames nas mãos e aixiterus por toda a pele, nos poros

E você quer ouvir eu te amo
De novo e de novo
Até você ouvir, meu bem
Te loviu

Aí então beijos de sonho
Do seu jeito

Sua língua, palavra falada
Bendita

Félix de Melo

Ex-acadêmico de diversos cursos

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store